Qual a relação da Palavra de Deus com as ciências humanas?

As ciências humanas e a fé

Estamos vivendo um momento intenso de reflexão sobre temas referentes à vida humana, pesquisas científicas, biotecnologias, etc. Um período do advento das ciências humanas. Os avanços científicos, em diversas áreas, suscitam debates éticos, religiosos, jurídicos. Os vários setores do poder público, judiciário, religioso, científico e privado estão mobilizados nesse debate. As ciências humanas aumentam, continuamente, o conhecimento dos indivíduos e das sociedades humanas. Essa situação traz consigo grandes problemas e também grandes possibilidades para a convivência e a sobrevivência humana.

Dentro desse cenário de enorme avanço das ciências, nos diversos campos, as questões que confrontam o cientificamente possível e o eticamente admissível serão cada vez mais frequentes. “A ciência e a técnica, preciosos recursos do homem quando são postos a seu serviço e promovem seu desenvolvimento integral em benefício de todos, não podem indicar sozinhos o sentido da existência e do progresso humano”. Um ponto essencial destacado pela instrução Donum Vitae, ainda no início, é o perigo de “tomar nas mãos o próprio destino”, e ceder “à tentação de ultrapassar os limites de um domínio razoável sobre a natureza”.

Foto ilustrativa: Wesley Almeida/cancaonova.com

Fé e razão

O debate público é de enorme relevância, pois a Igreja mesma entende a necessidade do esclarecimento sobre a relação da Palavra de Deus (Bíblia) com as diversas ciências, ou seja, da fé com a razão. A competência da comunidade de decidir sobre os rumos das ciências não deve ficar só nas mãos dos cientistas e dos políticos. A humanidade inteira deve ter suas instâncias de participação.

Um dos setores mais envolvidos, neste debate, e que mais recebe críticas é a Igreja Católica. A Igreja é criticada por pessoas e setores da comunidade alegando dogmatismo, imposição, arbitrariedade, desrespeito pela liberdade, intenção de dominar o estado. Muitos afirmam que o estado é laico, por isto a Igreja não deve se “intrometer”, e que a Bíblia nada tem a dizer. Afinal, a Bíblia diz algo?

A Bíblia não é um livro de ciências, mas nos apresenta princípios ético-religiosos que iluminam as atividades das ciências. A Igreja à luz da Palavra de Deus defende o que chamamos de “lei natural”, lei estabelecida por Deus pela ordem da criação, inscrita no coração do homem e que sempre diz “faça o bem e evita o mal”. Independentemente da cultura ou da época histórica, nunca é lícito qualquer ação ou lei que contradiz a vontade de Deus inscrita no coração do homem e escrita na Bíblia. O filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626) chegou a afirmar: “Pouca ciência afasta o homem de Deus, porém, muita ciência a Deus o conduz”. A ciência que esteja em diálogo com a Palavra de Deus consegue adquirir a verdade do conhecimento com conclusões honestas e lícitas a respeito da vida.

As ciências estão a serviço da humanidade

Quando a Bíblia relata alguns fatos “aparentemente científicos”, não é seu interesse fazer ciências, mas valorizar a razão, a inteligência do homem. Ela sempre dará orientações para ações em defesa da pessoa e da criação. É preciso, por parte das ciências, ter uma atitude de humildade para dialogar com a Bíblia e reconhecer o seu limite. Como sublinha o Magistério Católico, “nem tudo que é tecnicamente possível ou realizável é eticamente aceitável”. 2 A Igreja, inspirada na Palavra de Deus, sempre expressou a apreciação pelas ciências e busca nestas, fundamentos racionais para a própria fé, no desejo de integrar “evidências” racionais e “convicções” crentes.

Enfocar a relação Bíblia e ciências é entender a salvação em sua totalidade segundo o Concílio Vaticano II: “É a pessoa humana que deve ser salva. É a sociedade humana que deve ser renovada. É, portanto, o homem considerado em sua unidade e totalidade, corpo e alma, coração e consciência, inteligência e vontade”. 3

Afirmamos que o progresso científico e tecnológico serve para o bem de toda a humanidade e os seus benefícios não podem ser colocados em favor apenas de poucos. As ciências estão a serviço da humanidade. Pelo progresso das ciências e conformidade com o projeto de Deus, o homem contribui com a obra da criação. Conforme diz o Papa Francisco, para evitar a “trágica divisão” entre “a cultura humanista-literária-teológica e a científica”, bem como para “encorajar um maior diálogo também entre a Igreja, comunidade de crentes, e a comunidade científica”, sublinha a “necessidade premente do humanismo”.

Deus confiou ao homem o cuidado de Sua criação

Deus criou o mundo, tendo também, consequentemente, criado os seres humanos com capacidade de participar da Sua criação. Afirma Tomás de Aquino: “Uma vez que se diz que os seres humanos foram feitos à imagem de Deus em virtude de terem uma natureza que inclui um intelecto, tal natureza é à imagem de Deus sobretudo em virtude de ser o que mais consegue imitar Deus” (ST Ia q. 93 a. 4). As ciências, em respeito à lei natural, lei estabelecida por Deus, possibilita ao ser humano esta participação.

No início da Bíblia, Deus se apresenta como o Supremo Criador: “No começo, Deus criou os céus e a terra” (Gn 1,1) revelando a ideia bíblica de criaçãoex nihilo (do nada) e as ações desenvolvidas pelo Criador, a fim de preparar a terra para produzir e sustentar a vida, confiando ao homem a continuação de Sua obra criadora. Por isso, a Igreja sempre teve grande apreço pelas ciências, porque o ser humano, “única criatura que Deus quis por si mesmo”, 4 é imagem e semelhança de um Deus que criou o mundo por amor e confiou ao homem o cuidado da criação de modo responsável, na lógica da gratuidade, do amor, do serviço, e não a do domínio e da prepotência.

Afirma o Magistério Católico: “O homem de hoje, considerado quer individual quer coletivamente, é posto em confronto, cada dia, com problemas morais delicados que o desenvolvimento das ciências humanas, por um lado, e a mundialização das comunicações, por outro lado, colocam constantemente em discussão, ao ponto de que também crentes convictos têm a impressão de que algumas certezas de outrora estão anuladas. Pense-se apenas nos modos diversos de abordar a ética da violência, do terrorismo, da guerra, da imigração, da partilha das riquezas, do respeito dos recursos naturais, da vida, do trabalho, da sexualidade, das pesquisas no campo genético, da família ou da vida comunitária. Diante dessa complexa problemática, nos últimos decênios pode ter havido a tentação, em teologia moral, de marginalizar, em todo ou em parte, a Escritura. Que fazer quando a Bíblia não dá respostas completas? E como integrar os dados bíblicos, quando para elaborar um discurso moral sobre tais questões é preciso recorrer às luzes da reflexão teológica, da razão e da ciência? Este será agora o nosso projeto”. 5

Defender a vida

A Igreja não deve julgar à priori os possíveis desdobramentos dos avanços das ciências, mas manter um diálogo constante com o mundo científico para se inteirar das possibilidades, perigos e limites dessa nova etapa que se descortina na história da humanidade. Portanto, é preciso que haja uma espécie de vigilância ética no âmbito técnico-científico, com o intuito de inibir qualquer ciência que ameace ou viole a dignidade humana.

Isso não significa, porém, impedir o avanço científico em áreas que trarão claros benefícios à humanidade. A Igreja, à luz da Bíblia, deve estar atenta à necessidade de defender a vida em geral e também a vida individualizada, de cada ser humano, portador de características próprias; a lutar contra toda e qualquer ciência que fere diretamente a vida.

Cabe à Igreja zelar para que os benefícios decorrentes das diversas ciências não fiquem restritos a uma ínfima parcela de privilegiados, mas estejam ao alcance de toda a humanidade. A atitude da Igreja é, e deve ser sempre, fundamentada na Bíblia, de denunciar com coragem, franqueza (parresia) toda ameaça à vida, tudo que contraria a lei estabelecida por Deus. A Igreja conhecedora do projeto Divino presente na Bíblia e consciente de sua missão assume o compromisso de defender a vida que é ferida, agredida por uma sociedade que a ameaça.

 

Padre Mário Marcelo

Mestre em zootecnia pela Universidade Federal de Lavras (MG), padre Mário é também licenciado em Filosofia pela Fundação Educacional de Brusque (SC) e bacharel em Teologia pela PUC-RJ. Mestre em Teologia Prática pelo Centro Universitário Assunção (SP). Doutor em Teologia Moral pela Academia Alfonsiana de Roma/Itália. O sacerdote é autor e assessor na área de Bioética e Teologia Moral; além de professor da Faculdade Dehoniana em Taubaté (SP). Membro da Sociedade Brasileira de Teologia Moral e da Sociedade Brasileira de Bioética.